8. ARTES E ESPETCULOS 22.5.13

1. ARTE  UM ATO DE BELEZA
2. CINEMA  JUSTIA PARA TODOS
3. LIVROS  O PARASO DE BROWN
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  A REVOLUO E O PAPEL HIGINICO

1. ARTE  UM ATO DE BELEZA
A mostra da Coleo Boghici, no novo Museu de Arte do Rio, apresenta um empolgante painel de dois sculos de cor, caos e paixo.
MRIO MENDES 

     Ao entrar na exposio O CO-LE-CIO-NA-DOR  Arte Brasileira e Internacional na Coleo Boghici (em cartaz at 1 de setembro no Museu de Arte do Rio, ou MAR, inaugurado em maro), no h como no ficar impressionado com a imponncia da tela Rio Visto de Niteri, pintada pelo alemo Ferdinand Keller em 1873. A imagem do pequeno barco pousado na areia da praia selvagem, sob um cu dramtico e com o contorno do Po de Acar ao longe, evoca o melhor da pintura europeia da poca e provoca a exclamao do curador da mostra, Leonel Kaz: "Parece um Turner!"  o artista britnico do sculo XIX que foi o representante mximo das paisagens poticas e arrebatadoras. Ao mesmo tempo, pertinho da obra pica de Keller podem-se apreciar o rigor e a preciso silenciosos de uma natureza-morta do italiano Morandi, ou ainda as linhas modernistas inspiradas pela cermica indgena de O Urso, do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Para um observador mais afeito a mostras organizadas de maneira didtica  com peas dispostas segundo a cronologia de um perodo ou obedecendo aos critrios de uma escola esttica  pode parecer que est tudo junto e misturado. E  exatamente isso. 
     "Desde o incio, minha ideia era copiar o que vai pela cabea do Jean", explica o curador Kaz. Por Jean entenda-se Jean Boghici, romeno, 85 anos e mais de sessenta de Brasil ou melhor, de Rio de Janeiro. Colecionador e marchand desde os anos 50, Boghici reuniu em torno de si no apenas saborosos episdios e aventuras, conforme convm a um genuno personagem da vida carioca, como tambm inmeros artistas  alm de um acervo invejvel, englobando a produo de pelo menos dois sculos de arte. Segundo Kaz, entre os 136 trabalhos expostos existem desde obras avaliadas em cerca de modestos 1000 reais  como um quadro da pintora Grauben  at aquelas que alcanam 10 milhes, caso da tela Sono, de Tarsila do Amaral. "O critrio de Boghici foi sempre o valor afetivo de cada uma delas", resume o curador. J a cacofonia visual da mostra tem a ver com o modelo seguido pela montagem: o apartamento do prprio Boghici, onde, segundo a apresentao do catlogo da mostra, "est tudo embaralhado como se, na noite anterior, os quadros tivessem se amado, se multiplicado, se engalfinhado". Assim, a nica lgica possvel da exposio  mesmo a do olhar. 
     Um dos traos da personalidade de colecionador de Jean Boghici  a total falta de cerimnia no trato com suas obras. Na cobertura onde vive com a mulher, Genevive, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, nenhum quadro, escultura ou mvel permanece muito tempo no mesmo lugar. Boghici  famoso por manusear as peas o tempo todo ou, s vezes, dar a elas uma funo inesperada. Um quadro de Antonio Bandeira, por exemplo, faz as vezes de cabeceira da cama do casal. Detalhe: a obra foi adquirida, por acaso, num dia em que ele voltava a p da praia. 
     Essa convivncia intensa e muito particular de Boghici com sua coleo sofreu um forte abalo em agosto do ano passado, quando um incndio atingiu o apartamento e, alm de consumir fotos e documentos, fez desaparecer dez importantes obras. Entre elas estavam o retrato do colecionador de autoria de Emeric Marcier e a histrica tela Samba, pintada pelo jovem Emiliano Di Cavalcanti em 1925. Esse ltimo quadro era a menina dos olhos de Boghici. Foi adquirido nos anos 60, quando ele fundou com mais trs amigos a Relevo, galeria que marcou poca ao revelar artistas como Antonio Dias, Rubens Gerchman, Roberto Magalhes e Wanda Pimentel, entre outros. Quando a galeria fechou as portas, em 1969, Boghici, que era o scio menos abonado, abriu mo de itens valiosos do acervo em troca de apenas um  Samba. Desde ento ele recusou inmeras propostas para vender o quadro, tanto de colecionadores particulares como de museus brasileiros e prestigiosas instituies internacionais. S mesmo um golpe do destino para afast-lo de tal paixo. Coincidncia ou no, desde o incidente a sade de Boghici declinou. At o fechamento desta edio, ele permanecia internado, com vrios problemas de sade. 
     Nascido em Ismail, na Romnia, em 1928, Jean Boghici cresceu no meio do cenrio poltico tenso que levou  II Guerra Mundial. Mais tarde, viu sua cidade ser invadida pelas tropas soviticas. Foi o bastante para fazer o rapaz que gostava de desenhar ter certeza de que seu destino estava em algum lugar bem distante dali. A primeira parada, em 1947, foi a Hungria, onde estudou eletrnica. Depois seguiu os passos de todos os aspirantes a artista: Paris. Segundo Boghici, a viagem foi feita a p, de trem e de barco, e durou um ano. Mas, ao contrrio da maioria, que se apaixona por Paris  primeira vista, ele achou tudo cinza e chato. Tambm no tinha documentos nem um tosto. O consolo era ver nos museus as pinturas de Czanne e Van Gogh, que o faziam continuar desenhando. Quem lhe falou pela primeira vez do Brasil foi o escritor americano James Baldwin, que pretendia ir  Bahia estudar a negritude do pas. 
     O futuro marchand achou a ideia do Brasil interessante. No perdeu a oportunidade de embarcar clandestinamente em um navio que, depois de vinte dias de travessia, o deixou no Rio de Janeiro, em 1949. Na cidade ensolarada, sem amigos nem, como sempre, dinheiro, ele contava apenas com a prpria sorte e um endereo anotado num pedao de papel. Por um feliz acaso que iria se repetir por diversas vezes em sua vida, a senhora romena que vivia no tal endereo era casada com o ento ministro das Relaes Exteriores, Raul Fernandes. Boghici conseguiu documentos para viver no pas, trabalhou por uns tempos em Belo Horizonte e, ao voltar ao Rio, virou tcnico de som na boate Vogue, ponto de encontro do caf society, onde fez amigos poderosos e influentes. Mas a aventura com a arte comeou mesmo quando ele era vitrinista das lojas Ducal  famosa rede varejista de artigos para cavalheiros , no centro do Rio. Certo dia, andando pela rua, Boghici deparou com as pinturas do artista primitivo Paulo Pedro Leal. Bem informado sobre o cenrio artstico brasileiro, ele sabia que o gnero naf havia sido um enorme sucesso na recente Bienal de So Paulo e, por impulso, comprou alguns dos trabalhos. A tela Bacanal, que tem lugar de destaque na mostra, era um deles, e representa o marco inicial de sua coleo. Tambm a televiso, curiosamente, ajudou Boghici a se estabelecer como marchand de tableaux  para usar um termo da poca. Em 1957, ele se tornou uma espcie de celebridade instantnea ao responder sobre Van Gogh no popularssimo programa de conhecimentos gerais O Cu  o Limite. Apesar de no ter chegado ao final da competio, saiu com um prmio de cerca de 100.000 dlares no bolso. 
     "Na verdade, Boghici sempre colecionou para si mesmo e para os outros", diz Kaz, que aponta a expertise e o olhar clnico do marchand como a matriz de importantes colees brasileiras. Por exemplo, a Fadel (que est exposta em outra sala do MAR) e a de Gilberto Chateaubriand. Alm disso, a antolgica exposio-manifesto Opinio 65, realizada no MAM carioca em plena efervescncia cultural de protesto que se seguiu ao golpe militar, foi uma iniciativa de Jean Boghici e de sua namorada na poca. Ceres Franco. 
     O CO-LE-CIO-NA-DOR (no, no h razo particular para a grafia extica) est dividida em duas salas. Com cenografia assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara e concepo grfica de Jair de Souza, o primeiro ambiente  romntico e figurativo, misturando sculo XIX com modernismo e surrealismo. J o segundo ambiente  mais conceitual; traz a Nova Figurao de artistas como Wesley Duke Lee e Lowell Nesbitt ao lado da pintura russa e chinesa  Boghici  particularmente f desta, que influenciou seus favoritos, Van Gogh e Czanne. Em vez de penduradas nas paredes, as telas esto dispostas em crculo no interior das salas, um recurso que proporciona a exata sensao de leveza necessria  mistura to ecltica de pocas e gneros. Mas, sobretudo, paira no ar um tom de celebrao e bom humor, como  comum ocorrer no trabalho de vrios estrangeiros que trocaram a sisuda Europa dos tempos da guerra pela luminosidade tropical brasileira. Ou, nas palavras do curador Leonel Kaz: "Jean Boghici possui o raro talento para reconhecer uma verdadeira obra de arte. Por isso sua coleo , acima de tudo, um ato de beleza". 

MEMRIA TROPICAL
A impactante paisagem de Rio Visto de Niteri foi pintada de memria e a partir de esboos pelo alemo Ferdinand Keller, em 1873, como resultado de uma viagem feita ao Brasil quase vinte anos antes. Os elementos inquietantes da natureza, como a mata e o mar selvagens, sem dvida sofreram influncia do artista ingls Joseph Turner, uma importante referncia do perodo.  direita, Jean Boghici no retrato de Emeric Marcier, uma das telas perdidas no incndio que atingiu o apartamento do colecionador no ano passado.

ABSTRAAO CONSTRUTIVA
Madi VII, de 1945,  obra do uruguaio Carmelo Arden Quin, discpulo do clebre escultor Joaqun Torres Garcia, que viveu no Brasil no incio dos anos 40. O quadro apresenta as principais caractersticas do trabalho do artista na poca: moldura irregular, traos arquitetnicos e uma composio de cores que ele dizia ser influenciada pela msica e pela poesia.

CHINA MODERNA
Boghici foi um dos primeiros colecionadores no Brasil a se interessar pelos artistas chineses que renovaram as artes no pas no incio do sculo XX. Entre os vrios exemplares de sua coleo, A Lenda da Serpente Branca, pintado por Lin Fengmian em 1960, explora temas ligados  cultura oriental, mas foi executado segundo uma concepo ocidental de estilizao e ritmo.

O COMEO DE TUDO
Foi a partir da aquisio das pinturas do artista primitivo Paulo Pedro Leal que Jean Boghici iniciou sua coleo. Bacanal, de 1955, chamou a ateno do colecionador, que sabia do sucesso do gnero na recente Bienal de So Paulo. O quadro tambm critica, com muito humor, os vcios privados e as virtudes pblicas do Brasil dos anos 50.

ALM DO EXOTISMO
O Urso, de 1925,  assinado por um dos artistas-chave do modernismo brasileiro, Vicente do Rego Monteiro. Influenciado pela arte europeia em constantes viagens a Paris, o pintor seguiu o exemplo dos artistas russos que se baseavam em lendas folclricas para compor essa tela inspirada na decorao da cermica indgena da Amaznia.

POP URBANO
O americano Lowell Nesbitt, com seu Ruins of Williamsburg Bridge, de 1971,  um dos destaques da Nova Figurao na coleo. Utilizando uma linguagem que faz referncia ao fotojornalismo e ao cinema, Nesbitt retrata carcaas de automveis no mesmo esprito da srie Car Crashes, de Andy Warhol.

A MENINA DOS OLHOS
Boghici nunca escondeu sua predileo por Samba, de Emiliano Di Cavalcanti. Quando fechou as portas da galeria Relevo  que havia se tornado referncia na arte brasileira , em 1969, ele fez questo de sair da sociedade com apenas esse quadro, pintado em 1925. Durante os anos seguintes, jamais considerou uma proposta de venda, por mais tentadora que fosse. Entre as dez telas perdidas durante o incndio em seu apartamento, no ano passado, essa foi sem dvida a mais sentida.

ENTRE O SURREAL E O POPULAR
Uma das telas mais valiosas da Coleo Boghici, Sono, de 1928, da modernista Tarsila do Amaral,  um exemplo das experincias da artista ao misturar o imaginrio folclrico brasileiro com o surrealismo que ela vira em Paris.

PINTURA DE PROTESTO
No H Vagas, de Rubens Gerchman, artista revelado por Boghici em sua finada galeria Relevo, faz uma citao  famosa pintura Trabalhadores, de Tarsila do Amaral. Ao mesmo tempo, sua linguagem pop alude  efervescncia poltica da cultura durante o regime militar. Foi um dos destaques da mostra Opinio 65, realizada por Boghici e Ceres Franco no MAM carioca.


2. CINEMA  JUSTIA PARA TODOS
No timo Terapia de Risco, Soderbergh  um modelo de imparcialidade: no h personagem que saia bem na foto.

     Durante os quatro anos em que seu marido esteve preso por fraude financeira, Emily (Rooney Mara) esperou fielmente por ele. Assim que Martin (Channing Tatum)  solto, porm, e promete  mulher reconstruir o vido de luxo que eles levavam, ela cede  depresso. Tenta se matar, jogando o carro contra uma parede de concreto. No pronto-socorro, o psiquiatra de planto, o doutor Banks (Jude Law, em um grande trabalho), se oferece para trat-la. Emily, porm, se mostra refratria a todos os antidepressivos usuais, e continua envolta na sua nuvem de tristeza e desnimo. Numa consulta informal com uma colega (Catherine Zeta-Jones), que atendera Emily anos antes, o psiquiatra aceita a sugesto de tentar um medicamento que acaba de chegar ao mercado  o fictcio Ablixa. Decide ainda combin-lo a um ansioltico em fase de testes, no sem antes esclarecer  paciente que est sendo remunerado para participar do estudo. O resultado das novas drogas  fabuloso: Emily recupera a alegria, a empatia e a libido. Sofre apenas um efeito adverso  sonambulismo profundo. Durante a noite, ela pe msica e faz refeies sem acordar. O marido, assustado, quer que ela interrompa o tratamento; ela insiste com o psiquiatra para continu-lo. E ento Emily comete um crime terrvel. De quem  a culpa? Dela? Da medicao? Do mdico que a receitou? 
     Em Terapia de Risco (Side Effects, Estados Unidos, 2013), j em cartaz, at o momento em que o caso de Emily vai ao tribunal tudo sugere que quem est em julgamento aqui  a "Big Pharma", como os americanos chamam a indstria farmacutica quando querem acentuar no os benefcios que ela traz, mas o lucro a que ela visa. A impresso no  incorreta  mas  incompleta. gil e ardiloso, o diretor Steven Soderbergh engata a outra marcha e vai para o noir. Pouco a pouco, o doutor compreende que h uma histria por trs da histria, e que ele no passa do "pato" nela. Mas quem  a femme fatale que est armando para ele, e por qu? 
     No convm responder  primeira pergunta, mas a segunda, essa  fcil: cada vez mais, nos filmes de Soderbergh, o porqu mora em uma das mltiplas variaes do materialismo e do sentimento das geraes presentes de que o conforto e a felicidade so direitos que o mundo lhes deve. No grand jury do diretor, no s a Big Pharma, mas todos os personagens, sem exceo, saem indiciados: se a cultura corporativa de acmulo de vantagens e evaso de responsabilidade fosse to estranha ou chocante  moral dos cidados como se apregoa, raciocina ele, ela no teria se fortalecido de tal maneira. Mas d-se a qualquer indivduo a oportunidade de sair ganhando sem pagar por isso  mesmo quando o preo  real e conhecido , e conte-se nos dedos quem no vai aproveit-la. Que Soderbergh entregue seu veredicto com humor e suspense, e sem proselitismo barato, torna ainda mais triste sua jura de que este filme encerra sua carreira no cinema. 
ISABELA BOSCOV


3. LIVROS  O PARASO DE BROWN
Em Inferno, seu sexto romance, Dan Brown repete a frmula que o consagrou como um best-seller mundial  mas nem por isso quem gosta de entretenimento vai se decepcionar.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     S o escritor americano Dan Brown, 48 anos, lana um livro assim, com tamanha pompa e popularidade. Na quarta-feira passada, um dia depois de distribuir seu sexto romance nas livrarias americanas, ele praticamente lotou os 2700 lugares de um dos teatros do Lincoln Center, em Nova York. Os convidados exibiam ingresso e tinham lugar marcado. Cmeras e filmadoras atulhavam as duas primeiras frisas de camarotes. Dan Brown subiu ao palco, apropriadamente decorado com smbolos enigmticos, e recebeu uma ovao de estrela. Sozinho, vestindo palet e gravata, em uma tribuna de acrlico transparente, ele contou histrias durante 58 velozes minutos. Ao ritmo de uma piada a cada quatro frases, entreteve a plateia  sua frente e a plateia virtual, que acompanhava a transmisso via internet. 
     Com bom humor, Dan Brown lembrou a infncia como filho de um professor de matemtica e uma organista de igreja, localizando a, na profisso dos pais, seu fascnio precoce pela tenso entre religio e cincia. Falou dos bastidores das gravaes dos dois filmes baseados em seus livros  O Cdigo Da Vinci e Anjos e Demnios, ambos com Tom Hanks no papel principal. Respondeu a sete perguntas que lhe foram enviadas on-line e, por fim, apresentou seu novo livro, Inferno (traduo de Fabiano Morais e Fernanda Abreu, 448 pginas, 39,90 reais, ou 24,99 na verso eletrnica), que chega s livrarias brasileiras nesta segunda-feira. Apresentou o livro com uma piada:  Os boatos contam que o papa Bento XVI renunciou s pressas depois de ler os originais de Inferno  e a plateia, formada por jornalistas, amigos, parentes, colegas, editores e convidados ilustres, se uniu numa sonora gargalhada. Pura brincadeira. Inferno no provoca a Igreja Catlica como o fez O Cdigo Da Vinci, que vendeu 81 milhes de exemplares e teve tanto impacto que levou o Vaticano a desmentir publicamente a verso do livro segundo a qual Maria Madalena e Jesus Cristo deixaram descendentes. Mas podia chamar-se, digamos, O Cdigo de Dante.  cria da mesma receita de sucesso. Brown mistura os mesmos ingredientes que o alaram ao Olimpo do mercado editorial com 200 milhes de exemplares vendidos em 52 idiomas: organizaes secretas, cidades histricas, pinturas renascentistas, smbolos medievais, cdigos ocultos e conspiraes, tudo amarrado numa narrativa vertiginosa, cinematogrfica, em que a revelao de um segredo ou de um mistrio  a diferena entre a vida e a morte  s vezes, de meia humanidade. No centro da trama de Inferno est, agora pela quarta vez, Robert Langdon, professor de simbologia de Harvard que usa relgio do Mickey Mouse, palets Harris Tweed e est sempre s voltas com um mistrio. 
     Inferno no dispensa nenhuma oportunidade de ao e de truque calibrado para surpreender o leitor. O prlogo apresenta um suicdio misterioso  "o ltimo passo para mergulhar no abismo"  e o primeiro captulo abre com o professor Robert Langdon hospitalizado em estado de completa desorientao. Ferido por um tiro de raspo na cabea e com uma crise de amnsia, ele pensa que est nos Estados Unidos, mas est na Itlia. Pensa que est em Boston, mas est em Florena. Sua cabea di e, dentro dela, se desenrola um pesadelo recorrente: na beira de um rio com guas vermelhas tingidas de sangue uma bela senhora de cabelos prateados, diante de um mar de cadveres, sussurra para o professor Langdon: "Busca e encontrars". No hospital, Langdon  atendido por Sienna Brooks, atraente mdica inglesa, 32 anos, QI de 208. Logo, quando uma mulher de cabelos espetados e macaco de couro invade o hospital com uma arma equipada com silenciador para matar nosso professor, a aventura comea  e entra no passo acelerado dos thrillers. 
     Quem  a assassina? Por que quer matar nosso professor? Langdon e Sienna fogem do hospital pelas sinuosas ruas de Florena. No apartamento de Sienna, descobrem no palet do nosso professor um minsculo projetor que exibe a imagem de La Mappa dellInferno, de Sandro Botticelli, que retrata a etapa do inferno da Divina Comdia, de Dante Alighieri. O quadro de Botticelli, porm, est adulterado. Os nove crculos que compem o inferno esto fora de ordem. Nas pernas dos enterrados vivos at a cintura e de cabea para baixo h letras que formam um cdigo. Por qu? O que dizem as letras? Por que o pesadelo? No rastro de tantas perguntas, s um comando faz sentido: "Busca e encontrars". 
     Inferno gira em torno de mensagens e personagens enigmticos: a assassina de roupa de couro, diretora da Organizao Mundial de Sade e comandante de uma organizao secreta, o "Consrcio", que opera a bordo de um iate de 300 milhes de dlares no Mar Adritico. Aqui, Dan Brown planta uma semente para o sucesso. Na introduo, ele avisa que o "Consrcio  uma organizao secreta com escritrios em sete pases. Seu nome foi modificado por questes de segurana e privacidade". Quem duvida que descobrir a real identidade do "Consrcio" ser o novo esporte dos fs de Brown? Outra semente: o livro chegou s livrarias americanas em 5/14/13, data que (no formato americano, com o ms antes do dia), lida ao contrrio,  o valor do nmero pi: 3,1415. Misterioso, no? O eixo central de Inferno  a previso malthusiana de superpopulao do planeta. Seu fio condutor, claro,  o Inferno de Dante. Quem busca boa literatura em Dan Brown deve lembrar-se do aviso que Dante colocou no portal do inferno: "Abandonai toda a esperana, vs que aqui entrais". (Ao descrever o sonho recorrente do professor Langdon, Dan Brown exibe a profundidade de lmina de suas metforas ao pr um mar de cadveres dentro de um rio de sangue. Quem pensaria nessa associao, no  mesmo?) Inferno de Brown  bom entretenimento. Isso est fora de dvida. Na semana passada, no Lincoln Center, Dan Brown disse que, se Inferno ajudar a redescobrir  ou descobrir  a obra de Dante, ele ter cumprido sua misso. "Passei os ltimos trs anos, literalmente, no inferno", brincou. Agora, com uma tiragem inicial, s nos Estados Unidos, de 4 milhes de exemplares, Dan Brown est de volta aos trs crculos do seu paraso: sucesso, fama e dinheiro.


4. VEJA RECOMENDA
TELEVISO 
JACK TAYLOR (ESTREIA NESTA SEGUNDA-FEIRA, S 22H, NO +GLOBOSAT)
 O ex-policial Jack Taylor (Iain Glen) s tem duas certezas na vida. Ao trombar com os (muitos) bbados que mendigam pelas ruas da cidade irlandesa de Galway, ele sabe que est diante daquilo que ser seu amanh. Seu alcoolismo  to severo que j se tornou parte constitutiva do que ele   o corpo e a mente no reagem se o tanque no estiver bem abastecido de usque. Cado em desgraa pela conduta errtica e por seu impulso para comprar as brigas erradas, Taylor tambm no tem iluses quanto a outra peculiaridade de seus conterrneos. "Na Irlanda, s procure a polcia quando voc no quiser resolver um problema", diz. No propriamente um seriado, mas um conjunto de cinco telefilmes exibidos pela TV irlandesa entre 2010 e o ano passado, Jack Taylor  daquelas prolas que esto a para demonstrar a fora de um bom ator fadado sempre a papis secundrios nas grandes produes. O escocs Iain Glen acumula atuaes competentes mas de destaque menor nas sries Downton Abbey e Game of Thrones. Aqui, o show  dele: o ator d um arrepiante contorno de carne e osso ao heri que, enquanto se afunda mais e mais no vcio, investiga crimes para os quais a polcia faz vista grossa.

DISCO
LITTLE FRENCH SONGS, CARLA BRUNI (UNIVERSAL)
 Quando se casou com o ento presidente francs Nicolas Sarkozy, Carla Bruni disse que no abdicaria da carreira para "ficar passando as camisas" do marido. A cantora e ex-modelo, italiana de nascimento, chegou a lanar um disco enquanto ainda era primeira-dama da Franca, Comme si de Rien n 'tait. E Little French Songs, seu quarto disco, traz muitas faixas que foram compostas nesse perodo  na entrevista que deu a VEJA quando do lanamento do disco na Frana, Carla Bruni contou que s vezes acordava Sarkozy  noite para lhe mostrar uma nova cano. Com voz pequena mas sensual, ela se faz acompanhar de instrumentaes tambm suaves, marcadas pelo violo. Carla, que j dedicou um disco a poemas em lngua inglesa, agora se sai com um disco com ttulo em ingls, mas gauls em esprito. "Claro que no  Duke Ellington. No  Elvis nem Jackson. No  Fitzgerald ou Armstrong.  apenas uma pequena cano francesa. Mas, quando a dor permanece por muito tempo, eu canto uma msica francesa", diz ela na delicada faixa-ttulo.

CINEMA
ERA UMA VEZ NA ANATLIA (BIR ZAMANLAR ANADOLU'DA, TURQUIA/BSNIA E HERZEGOVINA, 2011. ESTREIA SEXTA-FEIRA EM SO PAULO)
 Ao longo de toda uma noite, um grupo de homens roda pelas estradas rurais prximas  cidade de Keskin, na Anatlia,  procura de um corpo. O suspeito e seu irmo conduzem o detetive, o procurador e o mdico locais, alm dos soldados, policiais e motoristas que os acompanham, de curva em curva, de barranco em barranco, confundindo-se cada vez mais sobre o local em que teriam enterrado sua vtima. No percurso ou nas paradas, conversas aparentemente triviais acontecem entre os diversos personagens. Todas elas, porm, tero consequncias profundas a partir do momento em que o grupo retorna  cidade, j com o morto, e se prepara para notificar a viva e realizar a autpsia. Como em seus outros magnficos filmes  a exemplo de Climas e 3 Macacos , o diretor turco Nuri Bilge Ceylan no facilita as coisas para o espectador: para experimentar a sensao devastadora de solido, e compaixo, que ele  capaz de conjurar  preciso entregar-se aos longos silncios, aos planos demorados (e de beleza sublime) e s sutilezas de seus grandes atores. A recompensa, porm, no  pequena  e chega a ser transformadora para quem se dispe a colh-la.

O REINO ESCONDIDO (EPIC, ESTADOS UNIDOS, 2013. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ NO PAS)
 Maria Catarina, de 17 anos, acaba de perder a me. Vai ento, depois de muitos anos, se reencontrar com o pai, um cientista abilolado que acredita que na floresta existe uma civilizao avanada de seres diminutos. To obcecado ele est com essa ideia que mal registra a chegada da filha  e esta, desanimada, est j se preparando para ir embora quando casualmente se torna prova viva das teorias paternas: a rainha dos valentes homens-folha, da qual emana toda a vida vegetal,  assassinada num conflito com os corruptos e destrutivos boggans. E Maria Catarina, devidamente encolhida  minscula escala desses personagens, se torna a improvvel guardi do boto de flor que pode restabelecer o equilbrio da floresta. O diretor Chris Wedge, parceiro do brasileiro Carlos Saldanha na produtora Blue Sky, reafirma aqui o talento demonstrado em desenhos como A Era do Gelo e Robs para incorporar os elementos de cena  ao: folhas, ptalas e troncos ganham vida em uma animao por vezes virtuosstica e muito realada pelo uso acertado do 3D. Os adultos que acompanham as crianas ao cinema, porm, podem se preparar para se aborrecer um tantinho com personagens e um roteiro que nunca se elevam alm do genrico.

LIVRO
O SILNCIO DAS MONTANHAS, DE KHALED HOSSEINI (TRADUO DE CLUDIO CARINA; GLOBO; 352 PGINAS; 39,90 REAIS)
 Dave Eggers, escritor americano engajado em causas humanitrias, diz que O Caador de Pipas ajudou o pblico americano a entender o sofrimento do Afeganisto. Lanado em 2003, o livro de estreia do autor Khaled Hosseini  um mdico afego exilado nos Estados Unidos  tornou-se um best-seller internacional com uma traumtica histria de amizade que atravessa dcadas de tumulto e guerra. Seu livro seguinte, A Cidade do Sol, revisitou o mesmo cenrio histrico da perspectiva de personagens femininas. Este terceiro romance, que chega s livrarias a partir de tera-feira,  mais uma vez um amplo painel da histria do Afeganisto  mas tambm do exlio a que muitos de seus cidados se viram forados. A histria centra-se num casal de irmos, Pari e Abdullah. Hosseini domina bem o veio sentimental de seus enredos, como se nota j desde o primeiro captulo  uma lenda sobre uma espcie de demnio ladro de crianas, que prenuncia a separao dos dois protagonistas. 


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Marca de Atena  Rick Riordan. INTRNSECA
2. . A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA 
3 O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
4. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
5. O Guardio  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
6. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
7. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA 
8. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS 
9. Filhos do den  Anjos da Morte  Eduardo Spohr. VERUS
10.   Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
3. Na Cozinha com Nigella  Nigella Lawson. BEST SELLER
4. 15 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
5. Manifesto do Nada na Terra do Nunca  Lobo. NOVA FRONTEIRA
6. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR 
7. O Castelo de Papel Mery Del Priore. ROCCO 
8. Sobre o Cu e a Terra  Jorge Berboglio e Abraham Skorka. PARALELA 
9. Carta ao Filho  Betty Milan. RECORD 
10. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
3. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
4. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 
5. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
6. Minha Me, Meu Mundo  Anderson Cavalcante e Simone Paulino. GENTE
7. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti. AGIR
8. Querida Mame  Bradley Trevor Greive. SEXTANTE
9. Faa Acontecer  Sheryl Sandberg. COMPANHIA DAS LETRAS
10. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE


6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  A REVOLUO E O PAPEL HIGINICO
     A revoluo falou grosso, na semana passada, na Venezuela. O ministro do Comrcio, Alejandro Fleming, cobriu-se da mais heroica das faces, ajustou a mais resoluta das vozes, e anunciou: "A revoluo trar ao pas o equivalente a 50 milhes de rolos de papel higinico!". Depois do acar, dos laticnios, das carnes, da farinha de milho (com a qual se faz a sagrada arepa, o po de cada dia na mesa do venezuelano), do sabonete e da pasta de dentes, a crise de desabastecimento que assola o pas chegara ao vaso sanitrio. No se alvorocem os imprudentes, porm. La revolucin, enrgica e vigilante, far chover papel higinico, abarrotar com ele as prateleiras, fartar o mais exigente intestino, "para que nosso povo se tranquilize"  acrescentou o ministro  "e compreenda que no se deve deixar manipular pela campanha meditica de que h escassez". Faltar papel higinico no  de chamar ateno, na quadra que atravessa a Venezuela. Tambm no surpreendem nem o anncio de que haver importao do produto, nem o vezo de negar o desabastecimento. Digno de nota  o ministro invocar o santo nome da "revoluo". No  o simples e reles "governo" que vai importar papel higinico.  la revolucin! 
     J faz dois sculos e meio que a palavra "revoluo" paira, como sonho ou como pesadelo, sobre os processos polticos, mundo afora. Os eventos fundadores do fenmeno so a Revoluo Americana e, principalmente, a Francesa. Com os franceses, "revoluo" virou sinnimo de refundao do mundo. Tanto eles acreditaram nisso que revogaram o antigo calendrio e instituram um novo. Impunha-se que o tempo comeasse de novo, do zero. O carter refundador da "revoluo" radicalizou-se com as revolues comunistas, no sculo XX, a comear da Bolchevique. E ganhou acentos msticos com a promessa de criao de um mundo novo, marcado pela paz, pela generosidade e pela fraternidade, e povoado por um "homem novo". "Revoluo" passava a equivaler a purgao dos pecados e renascimento. O marxismo ateu irmanava-se s religies ao prometer um futuro de bem-aventurana, e ganhava delas ao localiz-lo no no Cu, mas na Terra mesmo. 
     O problema  que as revolues, segundo indicaram os fatos, nestes ltimos dois sculos e meio, abrigam em si o germe da destruio. No demorou e os franceses retornaram ao velho e bom calendrio gregoriano. Era o reengate com o tempo antigo. Dali para a frente, a histria da Frana  uma contnua demonstrao de que a fora da continuidade supera a da ruptura. Nas dcadas finais do sculo XX veio o colapso dos regimes comunistas, expondo a fragilidade das revolues que prometiam. Avanaram de modo mais consistente, inclusive na direo da igualdade, regimes que, em vez de prometer uma nova aurora, operaram na rotina realista das miudezas do dia a dia e das medidas tpicas, no quadro favorvel que s o respeito  lei e a solidez das instituies proporcionam. 
     Para voltar  ideia de calendrio, o germe que destri as revolues  a ambio de atalhar o tempo. As revolues socialistas, ao se proporem a revogar o capitalismo, investem contra um tempo histrico que  o do capitalismo. No  de admirar que o "processo revolucionrio" da Venezuela, assim como outros, antes dele, tenha resultado em desabastecimento. Produo de bens  algo que o capitalismo sabe fazer. O socialismo, como o comprova o legado dos pases que o experimentaram, no sabe. La revolucin, na Venezuela, boicota a iniciativa privada e demoniza o modo de produo capitalista. Tudo bem se houvesse algo para pr no lugar. No h. 
     Por essas e outras o conceito de "revoluo" soobra, neste sculo XXI. Menos na Amrica Latina, e em especial nesta Venezuela surrealista, onde os pajaritos trazem recados dos mortos. O ministro do Comrcio informou que o consumo mensal de papel higinico no pas  de 125 milhes de rolos. No h "deficincia na produo", acrescentou, mas sim um momento de "sobredemanda" que, para ser satisfeita, exige "uns 40 milhes adicionais". Impressiona o rigor estatstico, num pas em que poucas estatsticas funcionam, mas o ministro no esclarece o que teria determinado a tal "sobredemanda". Uma sbita acelerao dos processos digestivos do povo venezuelano? Seja como for, la revolucin cuidar disso. E assim o conceito de revoluo, graas  contribuio venezuelana, passa de um sentido a outro, to diferentes, da palavra "escatologia"  do sentido de aurora de um proftico tempo novo ao de estudo dos excrementos.


